sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

Natal...

… Dou-vos uma Boa-Nova, uma grande Alegria para todo o Povo: hoje nasceu para vós
na cidade de David o Salvador, o Messias e Senhor …
Lucas 2,10-11



E se fosse possível o Amor de Deus revelar-se para nós, assim,
na evidência de uma Pessoa?
E se Deus escolhesse, na sua Sabedoria de Amor, revelar-se, mergulhar na nossa História, através de um Homem?
E se o Amor de Deus formasse Carne,
humanidade da nossa Humanidade,
manifestando-se no Amor de um Pai a um Filho?
E se pudéssemos ver, contemplar, com os nossos olhos,
ouvidos, mãos, com os nossos sentidos,
a um Homem, da nossa Humanidade, chamar a Deus de Abbá, Pai?


Na Bíblia Deus revela-se, dá-se a conhecer através do mistério da Eleição: através de pessoas, desde os profetas, que se tornam sinal, manifestação visível de como Deus actua. E agora, no meio da Noite da nossa Humanidade ainda marcada pelas rupturas do pecado, vemos, numa criança, num Homem, o maior Sinal da Vocação, do Projecto que Deus sonha para nós:

Sermos seus Filhos, no Espírito de Jesus, pelo qual clamamos Abbá,
Pai, Nosso Pai!

Está inaugurada a Nova Aliança. Celebremos então.


Jesus Ressuscitado, Senhor: na Memória do teu Nascimento em Belém,
celebramos a Festa Maior da nossa História:
a Festa da Ternura do Pai, da sua Salvação, do seu Amor, que se revela em Ti.
No teu Nascimento, que um dia te conduzirá à Páscoa,
inaugura-se a Nova Aliança de Deus com a Humanidade,
uma Aliança da qual nós fazemos parte.
Obrigado, Senhor, pela tua Vida, obrigado por esta Noite.
Celebremos então na tua Presença, na Presença do teu Espírito Santo.


Este foi o texto de Introdução à Eucaristia da Noite, conhecida como a Missa do Galo. Amanhã partilho o texto à Celebração do Dia, para quem for porventura útil.
E a todos, o meu desejo de um Bom Natal, na Presença deste Emanuel:
um Deus não só connosco, mas para nós...

domingo, 15 de Novembro de 2009

Sacramentos

. O Livro dos Actos dos Apóstolos, de Lucas, narra a história dos primeiros discípulos após a Experiência Pascal, em como a Notícia da Ressurreição chega através deles desde o centro do judaísmo, Jerusalém, até ao centro do império, Roma. Concentra-se sobretudo em duas personagens, Pedro e Paulo, e apresenta esse anúncio como um Projecto de Deus que se está a realizar pela força do Espírito Santo. É Deus quem projecta que o anúncio do Ressuscitado chegue a todas as populações: «Recebereis a Força, o Espírito Santo que virá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, na Judeia, na Samaria e até aos confins do mundo» (Act 1,8).

. O Livro dá-nos a entender que a actividade fundamental da Igreja é o anúncio da Boa-Notícia da Ressurreição: «Quanto a nós, anunciamos-vos a Boa-Notícia: a Promessa feita a nossos pais foi cumprida por Deus aos seus filhos, ressuscitando Jesus como está escrito no salmo 2: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei» (Act 13,3-33). No entanto, vamos descobrindo por debaixo ou por dentro do texto que este Anúncio não é apenas um discurso, um conjunto de palavras. A Igreja anuncia a Ressurreição celebrando-a! O Anúncio ultrapassa as palavras, significa todo um Programa de Vida que se torna ele mesmo o Anúncio:

«Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos,
à união fraterna, à fracção do pão e às orações.
Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos,
o temor dominava todos os espíritos.
Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum.
Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos,
de acordo com as necessidades de cada um.
Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo,
partiam o pão em suas casas
e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração.
Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo.
E o Senhor aumentava, todos os dias,
o número dos que tinham entrado no caminho da salvação» (Act 2,42-47).

. Aquele que se torna o verdadeiro Anúncio ou Testemunho dos discípulos é o facto destes se reunirem para celebrar a Verdade desta Ressurreição, a certeza da Presença do mesmo Jesus ressuscitado como Filho por Deus-Pai. Celebram utilizando gestos, palavras, movimentos com uma linguagem mais simbólica que verbal, uma linguagem que encontra neles todo o sentido e por isso não exige explicações. O Novo Testamento deixa-nos sobretudo dois: a Fracção do Pão e o Baptismo.

. É sobretudo Paulo quem nos apresenta estas celebrações que eram frequentes na Igreja dos discípulos, mais que o próprio Livro dos Actos. E não deixa de ser curioso que não encontramos no Novo Testamento esquemas ou programas pormenorizados para celebrar, o que significa que estas celebrações não eram execuções rituais às quais era preciso continuar porque vinham de trás, mesmo que não as entendessem. A celebração da Fé na Boa-Notícia surgirá entre as comunidades como algo bem reflectido e aprofundado que se torna natural. É natural celebrar a Fracção do Pão ou Eucaristia porque o Senhor o deixou como memorial, um memorial que adquire novo sentido na nova Páscoa de Salvação inaugurada na Ressurreição:

«Com efeito, eu recebi do Senhor o que também vos transmiti:
o Senhor Jesus na noite em que era entregue,
tomou pão e, tendo dado graças, partiu-o e disse:
«Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim».
Do mesmo modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse:
«Este cálice é a nova Aliança no meu sangue;
fazei isto sempre que o beberdes, em memória de mim.»
Porque, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice,
anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha» (1Cor 11,23-26)

Do mesmo modo, o Baptismo, rito um pouco comum no mundo judaico (João Baptista é o melhor exemplo) é assumido e utilizado pelos discípulos para celebrar e proclamar a Vida Nova que o Ressuscitado inaugura para toda a Humanidade.
«Se alguém está em Cristo, é uma nova criação.
O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas.
Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por meio de Cristo
e nos confiou o ministério da reconciliação» (2Cor 5,17-18)

Toda a linguagem simbólica e celebrativa torna-se o centro do interior das comunidades, e é isso que se torna verdadeiramente um Testemunho. É a partir do Sentido encontrado em gestos e palavras que a comunidade entra na Boa-Notícia do Ressuscitado e é levada a construir a fraternidade e o anúncio. É aqui que nascem o que hoje chamamos de Sacramentos. Não são rituais religiosos que repetimos porque assim somos obrigados, mesmo sem os entender, ou para ganhar o tal estatuto de “praticante”. São a linguagem simbólica, de celebração, pela qual entramos neste Mistério, nesta Boa-Notícia que nos ultrapassa, e, a uma dada altura, as palavras, depois de proclamadas, já não são suficientes.
um grande abraço!

sábado, 31 de Outubro de 2009

Santidade...


. Sabemos como o tema da Esperança pode cair, muitas vezes, numa falsa consolação que nos retira ou desmotiva a assumir, diante de experiencias de sofrimento e opressão, uma atitude criativa e libertadora. O tema do Céu e da Bem-Aventurança tornava-se numa coisa de "outro mundo", um mundo que existe num outro lugar, e que leva a pensar que as nossas experiencias na história, na "carne" não são verdadeiras. Muitas vezes também o tema da santidade e os exemplos dos santos eram utilizados neste sentido, incutindo a resignação e a submissão.
. Um bom retrato desta situação é o que nos apresenta Sophia de Mello B. Andresen, num conto chamado "O Jantar do Bispo":
«O Dono da Casa tinha um pedido a fazer ao Bispo. Fora mesmo por isso que o convidara para jantar. E era por isso que, enquanto o esperava, ele meditava e preparava os argumentos da sua razão.
De facto, ali, naquelas terras de sossego, naqueles dominios submissos onde ele e seu pai e seus avós tinham exercido uma autoridade indiscutida, ali onde antes sempre reinara a ordem, tinha surgido agora uma semente de guerra.
Esta semente de guerra era o padre novo, um jovem padre de sotaina rota e cabelo ao vento, pároco de Varzim, pequena aldeia miserável onde moravam os cavadores da vinha. Havia muito tempo que Varzim era pobre e sempre cada vez mais pobre, e havia muito tempo que os párocos de Varzim aceitavam com paciencia, sempre com mais paciencia, a pobreza dos seus paroquianos.
Mas este novo padre falava duma justiça que não era a justiça do Dono da Casa. E parecia ao Dono da Casa que, dia após dia, semana após semana, mês após mês, a sua presença ia crescendo como uma acusação que o acusava, como um dedo que apontava, como uma espada de fogo que o tocava. E ali na sua casa cujos donos tinham sido de geração em geração símbolo de honra, virtude, ordem e justiça, parecia-lhe agora que cada gesto do Padre de Varzim o chamava a julgamento para responder pelos tuberculosos cuspindo sangue, pelos velhos sem sustento, pelas crianças raquíticas, pelos loucos, os cegos e os coxos pedindo esmola nas estradas. (...)
Mas o pior de tudo era a missa de domingo. Sempre o Dono da Casa ouvira distraido em Varzim os sermões de domingo. Eram sermões que falavam de paciência, resignação e esperança num mundo melhor. Sermões que não lhe diziam respeito. De certa forma, para ele nenhum mundo podia ser melhor, e desejava por isso ir para o Céu o mais tarde possível. De maneira que, enquanto os pregadores falavam, tudo o distraía. Distraía-o a pintura do tecto, distraía-o a criança que chorava. Daí passava para a lembrança do sulfato ou da vindima ou da venda do vinho. Pensava nos seus negócios.
Mas agora já não se podia distrair. Agora o padre novo falava da caridade. E a caridade de que ele falava não era a conhecida e pacífica praxe das comedidas esmolas regulamentares. Era um mandamento de Deus solene e rigoroso, uma palavra nua de Deus atravessando o espírito do homem.»
. É importante vermos como a Santidade, na Bíblia, não é entendida em termos de heroísmo individual, de heróis que se tornam exemplo segundo as histórias e caricaturas que deles se formam. A Santidade pertence a todo o Povo em virtude da Salvação que Deus neles realiza: os santos são os eleitos que experimentam na sua história a Salvação de Deus.É a partir do Êxodo que Israel se reconhece como um Povo de Santos, de homens e mulheres livres e chamados a viver a Aliança com Deus:
«Vós vistes o que Eu fiz ao Egipto, como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe até mim. E agora, se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade particular entre todos os povos, porque é minha a terra inteira. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa» (Ex 19,4-6).
. É a partir desta linguagem que o livro do Apocalipse fala dos "marcados" que, tal como no Egipto, também agora são salvos pelo Sangue do Cordeiro. De novo não temos heróis individuais, mas um Povo que nasce e se reúne a partir da Salvação realizada por Deus, agora já não o êxodo do Egipto mas a Ressurreição de Jesus. Por isso já não é apenas um povo segundo uma raça e lingua, mas "uma multidão imensa que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e linguas" (Apc 7,9). Na base está a descoberta que a Ressurreição de Jesus gera um Povo, uma Família, uma Nova Humanidade que está a nascer, que é unida e re-unida nessa Páscoa, que se descobrem vencedores, "de pé diante do Trono e na presença do Cordeiro".
. É esta Nova Humanidade, este novo e pleno Êxodo, de quem as Bem-Aventuranças são o Programa. Tal como os chamados Dez Mandamentos pretendiam ser o programa de um Povo que vivia segundo a Aliança de Deus, agora as Bem-Aventuranças são o grito de um Mundo Novo onde no centro estão os pobres, os que choram, os perseguidos. São esses os reunidos por Deus neste novo Êxodo, são esses que estão no centro de um Reino a acontecer à medida que caminhamos com o Homem de Nazaré pelas páginas do Evangelho. São esses os Santos que Deus reúne e salva, enquanto o mundo exclui.
. Estamos longe de heróis individuais de santidade, em virtudes e ascese. Estamos longe de uma esperança num "outro mundo" que torna a História falsa ou, pelo menos, um teatro. Encontramos um Reino no qual é Deus quem nos santifica, e uma Páscoa na qual estamos a nascer. Um Reino e uma Páscoa que nos reúne com um Programa, um Mandamento Novo. É Bom acreditar neste Projecto.
Um grande abraço e boa Festa de Todos os Santos!

domingo, 11 de Outubro de 2009

Origem da Igreja e Ministérios (II)

Os ministérios ou serviços nascem no seio das comunidades: estas formam o Corpo de Cristo (1Cor 12,27), nas quais os discípulos, cada um com o seu carisma, articulam esta comunhão orgânica na qual o Ressuscitado se torna Presente como a Cabeça. Os episcopos (palavra grega que significa vigilantes ou coordenadores) e os presbíteros (palavra que significa anciãos) nascem como ministérios de liderança nas comunidades.

As comunidades nasciam da evangelização efectuada pelos apóstolos itinerantes (como os Doze a partir de Jerusalém ou Paulo e Barnabé a partir de Antioquia) e, quando a comunidade iniciava, os apóstolos designavam de entre ela a episcopos e presbíteros que a lideravam. É este esquema que encontramos na Carta de Paulo a Tito, já dos anos 70-80 d.C:
«Deixei-te em Creta, para acabares de organizar o que ainda falta e para colocares presbíteros em cada cidade, de acordo com as minhas instruções» (Tit 1,5). Nesta carta encontramos também referência às presbíteras ou anciãs que desempenhariam também um papel de liderança e ensino: «Do mesmo modo, as anciãs tenham um comportamento reverente, não sejam caluniadoras nem escravas do vinho, mas mestras de virtude, a fim de ensinarem as jovens a amar os maridos e os filhos» (Tit 2,3-4).

Não encontramos no Novo Testamento uma clara distinção entre os dois ministérios: ambos designam o serviço de liderança nas comunidades quando estas adquiriam uma caminhada mais estável. O termo presbítero será de tradição judaica, das comunidades que surgiam do judaísmo na Palestina, e seguiam de perto a estrutura comunitária que já então encontrávamos na Sinagoga. O termo episcopos será de tradição grega, das comunidades vindas do helenismo.

Ao olhar para as nossas origens podemos ver como o mistério mais profundo da Igreja não é apresentado em termos de organização ou hierarquia, mas como Corpo de Cristo, comunhão orgânica e viva dos discípulos que em comunidades vivem a memória da vida de Jesus e testemunham a sua Ressurreição como acontecimento de salvação. As comunidades nascem vinculadas ao testemunho dos Doze Apóstolos, não em termos de poder ou hierarquia, mas de autoridade e reverência. No seio destas comunidades nascidas pelo anúncio da Palavra (é este o sentido da palavra Ecclesia, assembleia convocada pela Palavra), cujo centro é a Presença do Ressuscitado e a acção do Espírito Santo, nascem os ministérios ou serviços.

A Igreja continua a crescer no Império Romano do século I d. C., como nos narra o livro dos Actos dos Apóstolos, que lê esse crescimento como um Projecto de Deus de universalidade, desde Jerusalém até Roma. Este crescimento dá-se pelo dinamismo evangelizador das comunidades, que consagram e enviam a apóstolos itinerantes para anunciarem o Evangelho noutros territórios. É o esquema que encontramos em Act 13,1-4, com Paulo e Barnabé a serem enviados pela comunidade de Antioquia:

«Havia na igreja, estabelecida em Antioquia, profetas e doutores: Barnabé, Simeão, chamado ‘Níger’, Lúcio de Cirene, Manaen, companheiro de infância do tetrarca Herodes, e Saulo. Estando eles a celebrar o culto em honra do Senhor e a jejuar, disse-lhes o Espírito Santo: «Separai Barnabé e Saulo para o trabalho a que Eu os chamei.» Então, depois de terem jejuado e orado, impuseram-lhes as mãos e deixaram-nos partir».

As comunidades que são fundadas estão ligadas em comunhão com o Apóstolo que as funda e com a comunidade “mais velha” ou anciã da qual são enviados os missionários. Paulo escreve cartas às comunidades por si fundadas para que permaneçam fiéis ao Evangelho por ele anunciado (Gal 1,8). A Timóteo, pede-lhe que continue a transmissão (de onde vem a palavra Tradição) do Evangelho tal como o recebeu: «Quanto de mim ouviste, na presença de muitas testemunhas, transmite-o a pessoas de confiança, que sejam capazes de o ensinar também a outros» (2Tim 2,2).

Não encontramos aqui um esquema hierárquico ou centralizado para designar a relação entre as comunidades, como também não o encontramos na relação entre os membros da comunidade e os seus líderes. A comunidade está vinculada ao Evangelho que recebeu e nele deve permanecer fiel, em comunhão com o Apóstolo ou a Comunidade que a fundou.

Aqui desenvolve-se o papel do Episcopos: nos séculos II e III designam os líderes das comunidades fundadoras ou anciãs, como eram os casos de Jerusalém, Antioquia ou Roma. Estas comunidades possuíam uma autoridade especial, de reverência, por teres sido das primeiras a nascer, com os Doze, e por possuírem um grande dinamismo evangelizador. As comunidades fundadas permanecem fiéis ao Evangelho de Jesus se permanecem unidas à comunidade maior que as fundou, garantindo-se a transmissão (Tradição) do Evangelho. O Episcopos é o líder da comunidade maior ou anciã, com a missão de vigiar e cuidar da comunhão orgânica entre as comunidades, para que unidas formem o Corpo de Cristo, mediação de encontro e sinal da presença do Ressuscitado.

Vemos que as relações no seio da Igreja não são de tipo hierárquico, organizativo ou territorial: a estrutura de dioceses e paróquias será copiada mais tarde da divisão administrativa do império romano. A vida da Igreja acontece nos laços do anúncio do Evangelho e da acção do Espírito Santo pela mediação dos carismas e ministérios. O ministério do Episcopos ou Bispo, que surge na liderança de comunidades nascidas no contexto helénico, torna-se o de animar, cuidar e vigiar a comunhão eclesial: como líder da comunidade fundadora ou anciã, deve acompanhar as comunidades que nascem da evangelização, animando o seu crescimento e cuidando da comunhão entre elas. Como nas origens da Igreja, a sua missão hoje não é a de estar no topo de uma hierarquia ou estrutura, mas a de animar, como líder da comunidade anciã, a evangelização e crescimento das comunidades a ela unidas na comunhão eclesial.

um grande abraço e boa semana!

domingo, 4 de Outubro de 2009

Origem da Igreja e Ministérios (I)

Se lermos atentamente o Novo Testamento podemos ver que a Igreja não nasce de um modo hierárquico ou segundo um programa previamente bem definido. Não encontramos em Jesus um esquema detalhado de uma Igreja que continue a sua missão na Páscoa: Jesus anuncia o Evangelho do Reino de modo comunitário, reunindo discípulos que o seguem e multidões que o escutam. À medida que caminha para Jerusalém, Jesus parece tomar cada vez mais consciência de que a inauguração do Reino liga-se absolutamente ao seu mistério pessoal, à sua missão à qual o Abbá dará pleno cumprimento, numa morte que com os olhos da história foi infligida pelas autoridades romana e judaica.

Assim, Jesus não é o fundador da Igreja no sentido em que dá início a uma organização, para que esta depois continue; Ele é o Ressuscitado, a sua Vida é assumida e glorificada na própria Vida de Deus, na dignidade e intimidade de Filho. Neste sentido, a Ressurreição de Jesus, a sua Páscoa, é a plena realização do Projecto Salvador de Deus para a Humanidade, do seu Reino: na Páscoa de Jesus o Espírito de Deus torna-se Dom para toda a Humanidade, n’Ele somos assumidos e gerados na Família Divina como Filhos em relação a Deus-Pai. Na vida de Jesus inaugura-se a Salvação para toda a Humanidade como Vida Nova e Filial.

Segundo os relatos dos Evangelhos, Jesus testemunha este Mistério na Ceia com os seus discípulos antes da sua Páscoa: é na sua Vida entregue, como Pão partilhado e Sangue derramado, no seu Mistério Pessoal que se inaugura a Nova Aliança de Deus com a Humanidade. Aliança Familiar, Aliança de Salvação. A sua Ressurreição é a inauguração do Reino esperado e anunciado.

É aqui, nesta Ceia que a Igreja nasce, não como programa ou organização lançadas por Jesus, mas como Comunidade dos Discípulos que fazem a Memória da Vida entregue do Senhor e testemunham a inauguração do Reino de Deus. A Promessa de Jesus de que não se romperá a comunhão com os discípulos é plenamente confirmada na sua Ressurreição: «Em verdade vos digo: não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que o beba, novo, no Reino de Deus» (Mc 14,25). A sua Vida entregue é assumida por Deus-Pai gerando-o no seu Amor, como Filho. «E nós estamos aqui para vos anunciar a Boa-Nova de que a promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu em nosso benefício, para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus, como está escrito no Salmo segundo: Tu és meu filho, Eu hoje te gerei!» (Act 13,32-33).

Reunindo-se em Comunidade, os discípulos fazem a Memória da Vida entregue de Jesus, da sua passagem pela Galileia «fazendo o bem e curando todos os que viviam oprimidos pelo mal, porque Deus estava com Ele» (Act 10,38). E ao fazer esta Memória, os discípulos reconhecem a sua Presença como o Ressuscitado, Aquele em quem se inaugura a Plenitude dos Tempos de Salvação (Gal 4,4). A Igreja nasce neste testemunho dos discípulos, neste Evangelho ou Boa-Notícia: a Ressurreição de Jesus.

Os Doze Apóstolos tornam-se, no seio da Igreja Nascente, as testemunhas privilegiadas da Vida de Jesus e da sua Ressurreição (Act 1,22). Eles não são os fundadores da Igreja nem o topo de uma hierarquia, mas as testemunhas privilegiadas da Tradição da Ressurreição numa Igreja que rapidamente nasce com os discípulos a reunirem-se em Jerusalém, na Galileia, Samaria, Antioquia…

Tanto Paulo como Lucas nos testemunham que é vasto o grupo dos discípulos que se reúne na Fé no Ressuscitado, onde muitos provavelmente terão contactado com o próprio Jesus na história. «Apareceu a Cefas (Pedro) e depois aos Doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez, a maior parte dos quais ainda vive, enquanto alguns já morreram. Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos. Em último lugar, apareceu-me também a mim» (1Cor 15, 5-7).

É nesta dinâmica que a Igreja nasce, na Palestina do século I sob o Império Romano. A Igreja nasce como comunidades de discípulos que se reúnem para celebrar a Memória da Ceia do Ressuscitado e testemunhar o Evangelho do cumprimento das Promessas. O Novo Testamento não nos dá um regulamento sobre a organização e funcionamento das comunidades cristãs, mas fornece-nos os critérios fundamentais para as relações entre os discípulos. «Sentando-se, chamou os Doze e disse-lhes: «Se alguém quiser ser o primeiro, há-de ser o último de todos e o servo de todos» (Mc 9, 35).

É neste contexto que surgem os ministérios na vida das comunidades, como carismas colocados ao serviço da construção do Corpo de Cristo, da mediação da Presença e Acção do Ressuscitado no Mundo. «Pois, como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, constituem um só corpo, assim também Cristo. De facto, num só Espírito, fomos todos baptizados para formar um só corpo, judeus e gregos, escravos ou livres, e todos bebemos de um só Espírito. Vós sois o corpo de Cristo e cada um, pela sua parte, é um membro» (1Cor 12,12-13.27). Entre os muitos ministérios encontramos os de episcopo e presbítero, na missão de liderança das comunidades.
um grande abraço e boa semana!

domingo, 27 de Setembro de 2009

Tornar-se Cristão...

Por vezes temos a ideia que tornar-se cristão significa tornar-se mais religioso: passar a acreditar que Deus existe, andar com uma cruz ao peito ou com a imagem de Jesus na camisola, passar a frequentar as cerimónias religiosas…

A palavra religião vem de re-ligar, e significa todos os esforços e procuras que o ser humano faz para se ligar com o transcendente. Em toda a história o homem sempre procurou respostas para as perguntas mais importantes da sua vida.

É claro que tornar-se cristão pressupõe a dimensão religiosa de abertura ao transcendente; mas não se trata de escolher uma entre as várias religiões, como num supermercado, assistir a alguns ritos e cerimónias e praticar algumas condutas morais.

Nos Evangelhos vemos que Jesus não chama os discípulos para que estes se tornem pessoas religiosas: eles já eram judeus, já conheciam o Deus de Israel do Antigo Testamento. Jesus não os chama para que eles se tornem judeus mais praticantes, não os chama para irem mais vezes ao templo de Jerusalém. Convida-os para que, com Ele, descubram juntos a novidade do Rosto e do Amor de Deus, o Reino de Deus.

Jesus também era acusado de chamar discípulos que não eram considerados como “bons judeus”: o caso de Levi (também chamado de Mateus), cobrador de impostos, uma profissão mal vista na altura. Jesus não lhe pede que “regresse” à prática judaica, mas que o siga. E a transformação acontece na vida de Levi. O mesmo acontece com Zaqueu.

«Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me!» E ele levantou-se e seguiu-o. Encontrando-se Jesus à mesa em sua casa, numerosos cobradores de impostos e outros pecadores vieram e sentaram-se com Ele e seus discípulos. Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: «Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?» (Mateus 9,9-11)

Temos também o caso de Paulo: ele próprio diz que era um judeu exemplar, pertencia a uma classe de judeus ultra-patricantes, os fariseus. No entanto, teve de “cair” ou “dar um salto” para descobrir que a lógica de Deus, em Jesus, é outra: Deus não quer um grupo de religiosos praticantes, mas uma Nova Humanidade de irmãos e irmãs que nascem para uma Vida Nova no Amor!

Tornar-se cristão, ou discípulo de Jesus, é pôr-se a caminho para descobrir, na nossa vida, o Rosto de um Deus que é Amor. É ir abrindo os olhos e os ouvidos para ver e escutar como Deus está a agir na nossa história, amando-nos na mais bonita Graça e Liberdade.

Assim, torna-se cristão não é praticar uma religião mas é escrever um Projecto de Vida, ir crescendo e assumindo nas nossas opções e atitudes os critérios e prioridades de Jesus. É levar a nossa própria vida a sério, realizando-a no que é mais importante e que não morre: o Amor.

Os cristãos são pessoas religiosas no sentido em que vivem abertos e atentos à presença de Deus nas suas vidas, a presença de um Amor sempre novo e sempre maior que nos convida, interpela e chama a viver no Amor. Não basta dizer que acreditamos num deus lá nas alturas, como acreditamos na existência de Saturno!

Do mesmo modo, os cristãos não “assistem” a ritos e cerimónias religiosas, mas reúnem-se para, juntos em comunidade, descobrir de novo o Rosto e a Presença de Deus e celebrar a Nova Humanidade que nasce com Jesus; os sacramentos são celebrações com uma linguagem simbólica para proclamar esta Boa-Notícia!

Grande Abraço e Boa Semana!

domingo, 20 de Setembro de 2009

o Ressuscitado...


Se interrogarmos o Novo Testamento, não obtemos muitas respostas quanto ao tema da Ressurreição: Paulo preocupa-se, nas cartas à comunidade dos Tessalonicenses, em testemunhar a sua confiança de que o Senhor será fiél para com os seus discípulos até à morte: «Pois se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, o mesmo Deus, por meio de Jesus, levará os irmãos para estarem consigo» (1Tess 4,14).

Do mesmo modo, na 1ª Carta aos Coríntios, é de admirar ver como para Paulo não faz sentido proclamar a Ressurreição de Jesus e ter dúvidas sobre a fidelidade de Deus-Pai na morte dos seus filhos e fiéis: «Ora se se proclama que Cristo ressuscitou da morte, como dizem alguns de vós que não há ressurreição dos mortos?!» (1Cor 15,12) Paulo ensaia uma linguagem para exprimir esta realidade que ultrapassa a história e a transforma: é a nossa vida, a nossa identidade, o que somos e construímos na nossa história/corporalidade, em relações, que é transformado, tornado pleno e maior no seio da Vida, da Vitalidade de Deus-Pai. Abraçados ao Ressuscitado.

E a verdade que vou descobrindo é que esta Noticia da Ressurreição vem agrafada a uma vivência e procura que são, isso sim, o centro do Novo Testamento: o Ressuscitado. Penso que todos temos mais ou menos a experiencia de como o anúncio da Ressurreição e da Vida Plena se podem tornar palavras vazias, ou gastas, sem novidade ou sem uma carga de esperança... Porque este anuncio só recebe a sua vitalidade na descoberta daquele que é o Ressuscitado, no Encontro com o Filho nascido e gerado no Amor do Pai, para nós...

Podemos reconhecer isto diante dos Evangelhos que nos chegaram... Não encontramos neles uma reflexão ou uma tentativa de "explicação" sobre o que será a Ressurreição, o Céu, a Vida Eterna. Os Evangelhos são todo um caminho de encontro com uma Pessoa que os discípulos reconhecem como o Ressuscitado, o Filho que se torna, na sua Ressurreição, a Fidelidade máxima e plena a uma Vida Nova para toda a Humanidade. As comunidades dos discípulos reúnem-se, não na esperança sobre uma "vida futura num outro mundo", mas no Encontro com o Ressuscitado, que pertence ao seio familiar de Deus-Pai, e que nos assume nesse seio; o Ressuscitado que não é o ausente, mas o Enviado ao Mundo e à História, para que estas se tornem no Reino de Deus...

E então, descobrimos como o Encontro com o Ressuscitado torna tudo bem diferente... não num dia nem num ano, porque é um caminho, como os discípulos da Galileia para Jerusalém, para a Páscoa que se torna... num envio, de novo, para a Galileia, e dali para todos os povos (Mt 28,19). O Encontro torna-se Seguimento, diante de uma Pessoa surge, sempre de novo, a pergunta "E agora, o que havemos de fazer?" (Act 2,37). Diante de uma boa teoria como pode ser a de uma "Vida do Céu" ficamos parados, mas diante do Ressuscitado, do Vivo e Verdadeiro somos levados a caminhar com Ele para lhe perguntar "Mestre, onde moras?" (Jo 1,38). E perante Ele, por vezes, também descobrimos que "os teus pensamentos são segundo os homens, não segundo Deus", para de novo voltarmos a ouvir "Segue atrás de mim" (Mc 8, 33).

É uma Pessoa, um Homem… Cuja vida pertence ao sei mais íntimo e familiar de Deus, como Filho… Um Diálogo Familiar ao qual pertencemos e no qual estamos a nascer; de novo… (Jo 3, 3). Jesus, o Filho...
«Principio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus» (Mc 1,1)


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